taxi mãe

Abandono de si mesma: “doença” tratada com sucesso!

CLASSIFICAÇÃO: Histórias de consultório - 19/01/2012

Um caso me marcou bastante, não tanto pela doença em si, mas pela diferença de comportamento da paciente ao se tornar novamente saudável.

Cecília tinha 48 anos quando me procurou pela primeira vez. Estava casada há 24 anos e era mãe de quatro filhos, todos adultos jovens; o mais velho estava na ocasião com pouco mais de 21 anos. Havia se formado em magistério, mas exercera a profissão por apenas dois anos.

“Meu marido achava que eu não precisava trabalhar! Não senti muita falta, pois meus filhos foram vindo, eu fui me ocupando e mal vi o tempo passar.”

Sua queixa principal era a insônia, mas já se queixava dos sintomas de menopausa também: os temíveis calores. Na verdade, a idéia de se tratar era de uma amiga. Ela própria achava que não valia a pena gastar dinheiro com problemas tão corriqueiros.

“Será que ainda tem jeito de melhorar?”

Eu ia só observando, escutando e anotando. Às vezes é difícil para um médico ouvir coisas assim sem uma reação, mas nossa arte consiste em resistir aos impulsos e fazer anotações.

Comecei a indagar mais sobre seus hábitos, o que fazia durante um dia normal, e me vi diante de uma motorista semidesempregada. Percebi traços de office-boy nas horas vagas, com idas ao banco ou à escola dos filhos.

Mas provavelmente uma cozinheira de mão cheia, pois os marmanjos ainda faziam questão de jantar em casa quase todas as noites (o mais novo freqüentemente trazia a namorada). Também cuidava da sogra, que estava doente, e a acompanhava em algumas consultas. Visitava as amigas, ia ao cabeleireiro, feira, compras, “o que toda mulher de minha idade faz, oras”.

Quando perguntei sobre o que pediria ao gênio da lâmpada, foi contundente. “Não pediria nada porque não acredito em gênios e não estou precisando de nada.” Ledo engano!

Mas eu anotava e ela começou a achar aquilo interessante, pois nenhum médico havia anotado suas palavras antes, nem perguntava tantas coisas.

Ao indagar por que eu escrevia tanto, se sua vida era tão pouco interessante, eu larguei a caneta, olhei em seus olhos por alguns segundos, pensando no que dizer, e finalmente respondi: “Sabe que eu não acho!”

Ela sorriu, após mais de uma hora de consulta. Achei seu sorriso bonito e me atrevi a ir mais longe: “Não se fazem mais mães como a senhora!”.

Por quê? Porque as pessoas hoje em dia se preocupam muito mais com elas próprias do que com os outros. As mães trabalham, mesmo quando seus filhos são pequenos, têm seus próprios interesses, seus desafios e acabam sendo até mais valorizadas por seus filhos por isso.

Aí ela desabou e começamos uma longa conversa, já sem a caneta na mão. Contou-me que achava sua vida sem graça, vazia, sem emoção. Não tinha nem mais apetite por suas próprias comidas. Sexo também já não a interessava e só fazia quando seu marido lhe pedia. Sabia como agradá-lo.

Nossa consulta inicial durou umas duas horas e ao final ela me pediu desculpas pelo “tempo que havia me tomado”. Pensei comigo: “Se o remédio de fundo conseguir ‘energizar’ essa mulher, então uma pequena mudança será uma grande mudança”. Felizmente posso dizer que o bolo saiu melhor do que a receita. Com o passar das consultas, com o efeito do medicamento homeopático, somado a muitos empurrões e questionamentos, nós acabamos fortalecendo um belo vínculo de amizade e confiança mútua.

Vi uma mulher que se achava velha rejuvenescer sem a ajuda de nenhuma vitamina, fórmula ou cosmético. Ainda que, mais vaidosa, tenha começado a usar alguns cremes.

Seus filhos perderam uma excelente motorista, o marido teve de sair um pouco ou se conformar em ficar em casa sozinho, pois ela tinha vários interesses latentes que jamais havia buscado.

Começou a estudar terapia corporal, massoterapia e se formou. Abriu um consultório. Fiquei muito impressionado, pois ela o decorou sozinha, desabrochando outra de suas habilidades ocultas.

Suas novidades estão sempre me surpreendendo e acho que vai acabar rejuvenescendo mais até do que eu. Seu “caso” clínico me fez enxergar melhor o quanto o auto-abandono pode ser doentio e como a “cura” dessa doença pode melhorar a vida de uma pessoa.

Se você estiver se sentindo acabada como a Cecília se sentia, velha antes da hora, sem desejo, sem graça, sem motivação, saiba que a vida pode ser maravilhosa se bem aproveitada. Desde que a percebamos como tal. Basta limpar bem a lente dos óculos.