Pulsatilla

Suscetibilidade: o que, em especial, nos desequilibra?

CLASSIFICAÇÃO: Histórias de consultório - 19/01/2012

Tenho uma paciente de 6 anos chamada Luíza que ilustra muito bem essa questão da suscetibilidade. Foi trazida ao meu consultório por seus pais há dois anos, com uma queixa muito comum: falta de imunidade. “Vive doente e tomando antibióticos. Mal acaba um e já começa novamente a febre. Não sei mais o que fazer!”, comenta a mãe com visível angústia. E aí o pai sentencia: “Já tentamos de tudo. Recomendaram-nos o senhor! É nossa última esperança!”.

Com o objetivo de avaliar aquela garotinha miúda, lacrimosa e observadora, realizei uma entrevista de cerca de 90 minutos com seus pais, na qual procurei conhecer os sintomas da criança, seu tratamento pregresso, sua história desde o nascimento e seus hábitos como sono, alimentação (preferências e aversões), medos, reações às contrariedades, comportamento na escola, em casa, com outros familiares.

Com esses dados fiz a seguinte síntese: uma garotinha tímida, carente, com necessidade de atenção, que se alimenta frugalmente, chora com facilidade e permanece 80% do tempo sob o cuidado de professores, babá (a terceira em quatro anos) e avós. Os pais trabalham e têm pouco tempo disponível para ela, pois chegam em casa tarde e ela geralmente já está dormindo. O pai, além de tudo, viaja com regularidade.

Essa garotinha, muito apegada ao seu ursinho, estava nada mais nada menos do que apitando! Suas válvulas, localizadas no trato respiratório alto – como ocorre com muita freqüência –, estavam em pleno funcionamento e, apesar de constantemente suprimidas por antitérmicos e antiinflamatórios, voltavam à ativa assim que passava o efeito químico dos remédios, graças à sua boa vitalidade.

Foi muito delicado ter de explicar aos pais a situação. Tive de ser muito ponderado em minhas palavras, mas era imperioso mudar o enfoque do que estava acontecendo. Era meu dever para com aquela menininha assustada. A Luíza tinha e tem até hoje necessidade interna de afeto, atenção, carinho e reconhecimento maior que o comumente observado em outras crianças.

Se as crianças nessa idade estão em geral concentradas em seus brinquedos, na televisão, ou em videogames, a Luíza vira e mexe quer incluir seus pais em todas as atividades e procura desesperadamente ser o centro das atenções, dramatizando cada pequeno acontecimento.

Os pais até que se esforçam por dar conta, buscando dedicar atenção de forma qualitativa, já que não podem dá-la em tempo integral. Mas, para a Luíza, não basta! Nunca basta. Ela tem fome de afeto. E não é qualquer atenção. É atenção de quem ela ama.

Todas as segundas-feiras, a pobre pequena se sente mal, quer faltar à escola, prolongar o fim de semana, mas, “depois que chega na sala de aula, adora”. De tempos em tempos é obrigada a faltar, tomada de assalto por suas doenças. “Seria fingimento? Não pode ser, aparece a febre, e isso ninguém consegue fingir, não é doutor?”

Não, a Luíza não finge. Ela sofre de verdade. E seu sofrimento é causado pela conjugação de dois fatores: sua grande e especial suscetibilidade ao “abandono” e falta de tempo dos pais.

Podemos interferir no tempo que os pais dedicam aos filhos? Sim e não! Sempre podemos dar algumas dicas sobre o que está acontecendo e como eles poderiam aproveitar melhor o tempo compartilhado.

Há pais que se esquecem dos filhos enquanto trabalham: podem dar cinqüenta telefonemas de “negócios”, mas esquecem de ligar para casa para perguntar como foi o dia da criança na escola… Mas, efetivamente, não podemos sequer sugerir que pai ou mãe larguem ou diminuam seu tempo de serviço. Essa é uma questão de escolha individual.

É necessário então trabalhar a resistência da “panela” a esses períodos de ausência temporária. Precisamos fortalecer a paciente para que ela possa viver melhor nesses períodos de separação dos pais.

Ela vem melhorando muito, a olhos vistos, com Pulsatilla nigricans, um medicamento homeopático derivado de uma florzinha do campo que tem tropismo pelo sol e reúne mais uma porção de características peculiares e similares às da criança.

O importante a esclarecer aqui é que Luíza pode ter vários sintomas para exprimir seu desequilíbrio, mas sua doença principal, aquela que deve ser reconhecida e cuidada, é a necessidade de proteção e afeto – que é exacerbada e, portanto, pode se tornar a causa de novos desequilíbrios.

Um dia o(a) namorado(a) pode não ligar ou chegar mais tarde. O que acontecerá com ela se não recobrar sua capacidade de resistir a pequenos abandonos? Jamais será livre. Jamais conhecerá a verdadeira liberdade.

Pois a Luíza de dois anos atrás era prisioneira de seus afetos e de suas necessidades e, de forma inconsciente, aprisionava seus pais em culpas e chantagens. Mas isso agora é passado graças ao dr. Samuel e ao reconhecimento das “verdadeiras” doenças.