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Nem sempre é como parece: A história de Camila

CLASSIFICAÇÃO: Sem categoria, Histórias de consultório - 23/12/2011

Transcrevo aqui de meu livro “As doenças que você tem… e não sabe”, um caso de uma pacientinha tratado no consultório:

Camila, uma garota de 5 anos de idade, foi trazida a meu consultório com queixa de eczema de dobras que se alternava com rinite. Conversando melhor com sua mãe, perguntei o que ela achava que era mais característico no comportamento da filha. O que era mais chamativo? O que as pessoas pensavam a respeito dela? “Ah, doutor, minha filha é muito boa, muito querida por seus amigos na escola, muito generosa.”

Essa ênfase na generosidade me chamou a atenção, pois não é comum encontrarmos crianças dessa idade que abram mão de seus brinquedos em favor dos amiguinhos. Mas aquela impressão era passada pela mãe como um dado positivo, socialmente estimulado, e cabia a mim perceber se ela havia sido ensinada a ser boa e generosa, ou, como mais tarde pude confirmar, se essa generosidade excessiva era um sintoma de sua grande insegurança e desvalorização.

Camila não se achava merecedora daqueles brinquedos e os distribuia a todos, quase como um tributo. Ela também permiti, sem esboçar grandes reações, que sua irmã, um ano e meio mais nova, atrapalhasse suas brincadeiras, o que era visto erroneamente por seus pais como um sinal de maturidade precoce.

Com o tratamento, ela não apenas teve diminuídas a rinite e a intensidade de suas manifestações cutâneas como também melhorou o seu sono e se tornou mais “egoísta e chatinha” com a irmã. A mudança de padrão no comportamento já era esperada, pelo menos por mim, pois na minha compreensão da dinâmica de Camila, sua generosidade e maturidade precoce nada mais eram que expressões de sua falta de confiança em si mesma.

Hoje ela define melhor suas amizades e se resguarda de invasões de privacidade, cometidas pela irmã, pelos pais (que vira e mexe pedem favores exagerados) e pelas amiguinhas.

Em outras palavras, sintomas que podem parecer normais (ou adequados a uma situação especifica, ou mesmo ocultos e minimizados pelo paciente que não gosta de confronta-los) podem fornecer uma pista para revelar a instalação de um processo que culminará nem uma doença visível.